Era uma vez um punhado de terra...
E era uma vez o vento...
Um dia o vento soprou o punhado de terra, espalhando pelo jardim os grãos que antes formavam um montinho.
As árvores estavam inquietas, as folhas não paravam de dançar, a grama trepidava como podia, mas nada ficava parado naquele jardim. Tudo era verde. Claro, escuro, musgo, militar e todos os outros tons de verde possíveis.
Era tarde e toda aquela agitação previa chuva. E choveu. Primeiro de mansinho... Gota a gota, agraciando as folhas... Depois, forte, como quem esquece a gentileza.
O verde, então, parou de brilhar. E tudo ficou cinza...
Alguns dias se passaram, mas o cinza ainda era evidente.
O punhado de terra, então espalhado, virava-se como podia agüentando as fortes pancadas das gotas da chuva. Mas um dos grãos era diferente. Tratou de abrigar-se entre as folhas da grama e ali ficou. Silencioso. Adormecido.
O jardim se desfazia. As folhas frágeis caíam, a grama já quase desmaiava, mas a chuva não parava. O cinza não parava. A força não parava. E o vento não parava.
Mais um tempo se passou e a chuva, antes brava, parecia lembrar de ter piedade do jardim.
O verde não era mais tão verde, mas tentava não se igualar a terra.
O que antes era inquieto, agora é calmo. Um só som não se escutava. O jardim lamentava em silêncio... Mas não todo o jardim...
O grão diferente estava agitado. Tentava, como que por capricho, acomodar-se na terra úmida...E ali ficou.
O clima estava melancólico, mas embaixo da terra tudo parecia ser alívio e conforto...
Os dias passavam e tudo parecia igual. Menos o grão.
Este dançava...Lentamente embaixo da terra.
Em um momento, não se sabe se por dor ou por prazer, o grão rachou...
A chuva estava suave e o sol brilhava tímido. Um arco-íris surgia no céu e coloria um pouco o jardim ainda bastante castigado.
Pouco se passou até que algo realmente novo acontecesse.
Entre o verde da grama baixa uma nuance se destacava. E já não era mais grão.
Não era verde claro, nem era branco também. O que antes se achava ser terra, agora brotava... Ao som de uma música inaudível e em um tom de verde nunca antes visto.
Assim o jardim se enchia de vida nova, porém frágil.
A pequena plantinha, ainda encurvada, já se mostrava bastante especial. Tinha algo de delicado e puro em toda sua dança, mas ela parecia não perceber isso, preocupando-se apenas em crescer.
O ar voltava a ser fresco e as folhas já balançavam com mais alegria. O clima era ameno e, salvo a copa das árvores mais altas, o jardim estava a meia sombra.
A plantinha, tímida por natureza, crescia despreocupadamente cercada pela gentileza da grama que, apenas ao seu redor, parecia ser mais macia.
Agora, já quase ereta, ela podia olhar ao seu redor e tomada por surpresa, descobriu-se no centro do jardim.
Por vez cinza, o jardim voltava lentamente a brilhar em verde. E agora, mais do que antes, pareciam existir tons infinitos. Do mais escuro ou mais claro. Do quase negro ao quase branco.
Havia algo acontecendo... Era estranho e nada bonito, mas a vida nova mudava e, em poucos dias, cálices de todas as formas e tamanhos cresciam nas extremidades de cada rama.
O ambiente ainda era estonteantemente verde, mas as folhas não imperavam mais. Dia após dia, cada vez mais pesados, os cálices pendiam das ramas, pendurados por uma haste fina, porém bastante resistente. E, assim como os grãos fizeram um dia, os cálices racharam...
Pequenas rachaduras se formavam e entre cada fresta delicadamente separada, surgia uma nova cor...
O ambiente já não era de todo verde, mas começava a ter as mais belas e imagináveis cores... Nas mais belas e imagináveis formas...
A tímida plantinha, porém, continuava com seu cálice fechado... Caprichosa como sempre, se guardava como se soubesse o momento certo de aparecer...
Faz exatamente um mês que aquela sementinha encontrou o chão. E como que por graça resolveu-se assim...
O sol brilhava frio. Ainda era manhã. Ela começou.
Pétala por pétala... Delicada, suave, cuidadosa... Devagar como se sempre seguisse uma música... Era amarela. E cada movimento refletia uma tonalidade diferente...
Assim desabrochava, ao longo de todo o dia, a graciosa flor, no centro do jardim.
Tudo ao redor parecia em suspenso... O vento não ousava soprar, as folhas não ousavam cair e nada foi feito para perturbar aquela dança...
Mas a chuva ousou cair... Primeiro de mansinho... E só de mansinho...
Até ela foi seduzida pela dança daquela que tem graça...
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Parabéns Ka! Toda felicidade do mundo!!